sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

Eu espero,
Escutando o radio, passeando nas ruas, limpando o quarto.
Nenhuma pintura me chama a atenção
E não tenho disposição para lamentos.
Sou mais uma mulher derramada na janela, sem ter no que pensar,
Do que o sóbrio louco poeta desencravando as unhas da existência.
Durmo muito durante a noite.
E tenho mais sonhos que planos.
Não tenho disposição para desejos ardentes,
Sou mais um bêbado por languidez,
Do que o ébrio apaixonado pela noite vazia.
Gosto de conversar só por conversar,
Aprender um acorde no violão,
E fazer pouco das coisas graves...
Um poeminha de amor em espanhol
Chama a atenção, as vezes,
Fala sobre as cores da Tarde,
Sobre beijos perdidos
(Que se parecem com florzinhas de cerejeira?)
Não sei de cor mais que um verso...
Fico jogando galhinhos na aguá suja do rio,
E inventando historias banais.
Eu espero,
E pergunto ao céu violeta:
Há de vir?
Chegará o dia da semana?
A hora do dia?
O minuto da hora?
O instante?
E penso no dia que ainda nascerá,
Repassando a experiência custosa
Desses meus dias vadios.

domingo, 14 de setembro de 2008

Samba-canção

Não menti quando te disse sobre a boemia,
Sobre a cachaça, a camisa listrada,
E o Olerê, Olará
Que é sina do bom vagabundo
Meu amor, essa é minha graça, é meu mundo.

Eu quero mesmo é sair por ai
Cantando no sereno as antigas modinhas
De Carnaval

(Com prontidão num portão,
Com um pandeiro e um amigo no violão...)

E você logo vem querendo me julgar
Me acusar
Chega dizendo que é pra eu ir me aprumar.
Que a farra é indigna, que não vale nada.

Que é vida sem principio, sem moral, sem ambição!

Ai ai meu bem, saiba que há muito coração
Maior que o estudo, e que sua lógica certeira
E foi dessa sua mesma ingratidão
Que eu resolvi fazer, ressentida, sem brincadeira
Um muito fora de moda samba- canção!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Rotina...


New Century Time to Give Up:

I Wine
II Liqour
III Rich Food
IV Cigars
V Poker
VI Dice
VII Cards
VIII The Track
IX Cigarettes
X Pool
XI Pawnshops
XII Seedy Hotels

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Psiquê adormecida

Entre os corpos há comunicação.
Eles falam e se tocam,
Enchem-se de perfumes,
E vestidos de verão.
Mas as Almas não...
Não há caricia a uma alma,
Não há aroma, nem tintura,
Numa boa alma se encontra é amargura!

Quem conseguiu um dia tocar uma Alma
Não tocou senão a sua.
As almas não conversam,
Nem trocam coisa alguma.
Mas uma alma pode estar perdida,
Daí, é preciso encontrá-la
Para quando achá-la
Saber
Que nunca outra alma
Uma vez poderá lha compreender.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Conquistas


Tudo resumia-se nisso: A arte de seduzir e atrair a maior quantidade de coisas para si. Casos furtivos, amizades verdadeiras, boas oportunidades, tarefas honrosas, apreciadores, gente pertinente, críticas construtivas, amores intensos e passageiros...Esse é o artesanato da modernidade, essa é a saga do homem liberal.
Um bom sedutor tem sucesso garantido, é fato. No entanto, não pode assegurar algo como “uma felicidade tranqüila” ou qualquer coisa que se assemelhe a uma serenidade sincera. Para o conquistador permanecerá um vácuo, um vazio, uma eterna duvida do que vem depois de ter, como um ímã caótico, atraído para si todo um universo. É o exemplo clássico do bem sucedido que pira, que depois da fama e fortuna se acaba em achismos existenciais.
Mas, o que importa, claro, é o sucesso. E a sensação de se ter “vivido”...Ah..isso é essencial! Faz-se necessário, para tanto, costurar estórias, bordar casos, emendar acasos, elevando o que seria uma existência medíocre a uma sensação de se ter vivido com dignidade, dignidade esta concedida pela audácia da conquista individual.
É bom lembrar que um verdadeiro sedutor é, antes de tudo, um bom fingidor. Essa seria a regra numero um, nomeada mais singelamente de “pertinência”. Palavras como virtuosismo ou Excelência, cedem lugar à galanteamento, à audácia. Mas quê é isso senão o inevitável espírito empreendedor moderno contra o espírito antigo da Virtu, da arte da Excelência?
Enfim, Tudo resumia-se a isso. Nas casas, nas ruas, no comercio. Nas escolas, nas festas, nos grupos e associações. Não poderia dizer que fugi dessa toante, não, não fugi. Embora os antigos me fascinem demais, não há escapatória, sou uma moderna. Embora muito pouco bem sucedida, embora em tudo romântica e antiga, viver nesse mundo é estar sempre no meio de insinuações, de galanteios, de fascinações asquerosas e muito bem adaptadas, é gozar de uma liberdade a custo de um sonho qualquer, a custo de se aprender como se conquista. Desde pequenos, isso é ensinado: A arte da conquista. Senão não se vive aqui, se isola, assume-se (rs) um “isolamento social”.
Um samurai, um maestro, um eremita: A manifestação explicita de uma arte que se perdeu!! Ai como eu adimiro os virtuosos remanescentes.... Os samurais já não existem mais, e os eremitas e os maestros são considerados loucos... Mas os maestros? Você pode me perguntar, e eu lhe respondo: Sim! Os maestros que passam 49 anos trancafiados em um conservatório musical e saem de lá meia-boca! Se isso fosse em outro tempo...Não aconteceria. Até os pobres dos padres perderam a credibilidade....Todos tornaram-se uns sedutores, uns nojentos conquistadores, ou então morreram saudosos, inadaptados.
Tudo resumiu-se nisso. E resume-se para os espíritos pobres e para os homens de sucesso.
No entanto para o Velho Tadeu, amigo meu, homem de pouquíssimo sucesso e de espírito apurado (ó grande ironia moderna!) tudo resume-se a poucas lembranças e a falta de perspectivas.
Enquanto eu, odiando essa balela liberal, e no entanto filha prodiga do iluminismo, me deparo frente essa grande questão, já que me é impossível a virtu em algo (coloco aqui as tentativas na musica, no teatro, na religião, nas artes, já que nunca entrarei num convento, virarei um samurai, e muito menos um maestro) o que resta é tentar conquistar algo lá longe, com os métodos modernos, seduzindo, seduzindo, seduzindo. O custo, como já disse, é a paz de espirito. E quem a possui nessa época? Nem o mais sábio dos homens! Que hoje é considerado um anti-sociedade. É um marginal.
Eis a questão: não adaptar-se para melhor julgar, ou ceder ao espirito audaz da competitividade e conquista para construir alguma coisa.

sábado, 12 de julho de 2008

O Castelo

Um pequeno fragmento do conto:

"Certa vez no piano, depois de acabada sua quarta sinfonia, o príncipe estava tão cansado, cansado do castelo, cansado com suas composições e distrações, cansado das comidas bem conservadas, dos quartos grandes e vazios, cansado de sua juventude, que deixou sua cabeça quedar-se pesadamente no teclado do piano. O som foi tão forte que ressoou por todo o castelo. Ele ficou inconsciente por um minuto. Voltou a si com o som de sua eterna visita, a sua espera, rogando em suas batidas simétricas sua recepção.

O jovem príncipe martelou com sua cabeça o teclado novamente. E novamente com mais força. E mais uma vez. E por uma quarta vez, ainda mais intensa, machucou brutalmente as teclas de marfim.

Toc Toc Toc Toc. Ele a seguiu. Seguiu as mortais batidas dela com a cabeça no piano. Os muros do castelo tremeram com aquela violência, e ele, percorrendo toda extensão do teclado, murmurava: sol... lá.....mi.mi.... E não demorou á inserir uma melodia nas batidas com sua cabeça loira, vasta de cachos. Aos poucos foi nascendo nele uma sensação... Sentiu como uma Alegria.Uma Alegria que fez escorrer de seus olhos a mais branda lágrima. Toc Toc Toc Toc. Ele á acompanhava – Sol, lá , mi, ré – E assim continuou, sentindo-se poderoso pela primeira vez ao tocar finalmente com as mãos. “Há!” riu de um modo um tanto quanto maníaco, “És tu a minha musa?”.
(...)

No outro dia o príncipe já não era jovem. Vendo-se refletido, logo pela manhã e ocasionalmente nas louças de metal da copa, percebeu em seu rosto profundas trincheiras de carne flácida, olheiras fortes e sombrias, e que seus lábios haviam murchado como uma ameixa seca, no entanto nunca se sentira tão vigoroso. Também notou que uma clareira se delineava em sua cabeleira sempre tão vasta. Nunca teve tanto orgulho.

(...)

Do alto da escada acenou para os criados (que naquele dia retornaram a casa) e ordenou que preparassem o melhor chá da reserva. Ordenou também que concertassem o relógio do salão de jantas, que limpassem os jardins e arrumassem toda a bagunça que ele havia feito durante aqueles anos. Passando-se metade de uma hora, o velho príncipe precipitou-se á porta.
Toc Toc Toc Toc. As batidas continuavam iguais ao primeiro dia que ele as havia escutado, rústicas, limpas, claras. Ele não: Ele se tornara mais nobre.
Altivo, porem sóbrio, foi ele mesmo, sem cerimonial, abrir a porta principal. Ao virar a fechadura adornada fez-se um silencio de morte.
Frente a frente com sua visita, o príncipe não titubeou:
'Entre. És a minha convidada...'"

domingo, 29 de junho de 2008

Vontades Latino Americanas


"De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí"

Chan Chan -Buena Vista Social Club


http://www.deezer.com/track/7063


Me vem assim, de uma musica, a vontade tão imensa de partir. Descalça, Jovem, assim mesmo: Kerouac latino americana! Viajante Solitária!
Buena Vista me faz um partidor, um ser sem lar, vagabundo repentino, sem ideologia, sem final. Como quem não resiste ao bolero e a salsa. Seduzido brutamente pelo charme. Pelos prazeres efêmeros de um mundo desconhecido...
Ah! É pura vontade! Vontade de rostos, de corpos, de línguas. Vontade de arquiteturas decadentes, coloridas, de antigos casebres com tubulação aparente, de carros colecionáveis, vontade de cidades interioranas com pequeninas igrejas, vontade de cidades perdidas no tempo, vontade do passado, de ruínas de impérios, de ruínas de cantores de radio, e vontade de campos extensos, de cabarés á beira de estradas, de estradas.
Vontade de dançar com vinho espalhado nos lábios apostando a ultima moeda por um amor não correspondido!
É clichê. Sim. Sonho lúdico de criança...Quando ouço essas musicas desejo noites estreladas infinitas, aventuras distantes e dias quentes em lugares exóticos...Quero desterrar os pés e me afogar no continente...
Poderia ser um Violeiro.. Cantador de ilusões por caminhos misteriosos, cantando as promessas feitas em cada cidade, cantando pequeninas descobertas, estrangeiro perpétuo...
...Mil lares, incontáveis amores, inúmeros conhecidos...
É o que essas musicas em espanhol fazem á mim..incitam esse ardente desejo por viagens, por partidas. Vontade de se tornar estrangeiro e de conhecer esse estereótipo latino decadente, algo que de fato é corriqueiro, só que nos sonhos musicais se torna fantástico, intenso demais para um coração esperançoso e romântico como o meu.


quinta-feira, 26 de junho de 2008

Piêrro

" A colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim...
Dizendo: Pierrô o cacete! Vai tomar sorvete com o Arlequim!"
Um pierrô apaixonado- Noel Rosa


Tem desse amigo ao menos um soneto
Por essa dor que pensava ser derradeira!
Eu que sei, não passa de brincadeira
Comove-me esse teu cético tormento

Só o pierrô e o idiota vivem à beira
Entoando cações e sofrendo lento
Num gole tornando a magoa acalento
Virando a alma como um copo a esgueira

Segue leve amigo, não leva a sério
Vida é curta e vão é no mundo pilhar
Para tanto permanece sempre ébrio

Com sofredores na mesa de bilhar
E esquece a ingrata. Não é este o seu mistério?
Rir do amor morrendo por um olhar?

terça-feira, 17 de junho de 2008

... ...

Jovem, jovem
Quem pode assegurar algo?
Eternidade:
A felicidade é longe!

Que reste a beleza
Ficando assim um retrato
Ou um sadio hálito
Das noites de vigília.

Há! Vive assim, vadio.
Sem punhal, sem orla
Não é fundo, nem é raso.
É só.

Dia de inverno,
É novo:
Quer o perfume das fumaças
Das comidas dos jantares.

Quer uma foto do por-do-sol,
Um filme antigo,
Um beijo de criança,
E nenhuma garantia.

Anda desleixado.
Acha que pode ter um ataque
Fulminante!
Ah! Pobre jovem!

Se ri á toa.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Shakespeareanas

Ótima ofensa:

" Que esse orgulho, que ela chama franqueza, case com ela."

(rei lear)

domingo, 8 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Os prazeres de lecionar!

Foi quando expliquei á ele a estrutura da narrativa ficcional:

-Então entendeu? Um estória tem que ter um heroi, um vilão, uma trama e um solução para essa trama..
-Ah, eu gosto de fazer da minha cabeça mesmo!
(folheando o livro) - ...hum..tem que ter um espaço e um tempo....
-mas eu faço sem pensar...
-Tá! mas para se criar uma boa estoria esse é o modelo! Muito bem, então eu quero que voce me faça uma estoria com todas essas caracteristicas.
O meu irmão de 11 anos então a fez. Fez sim:
-Pronto. mas deixa eu ler senão voce não vai entender...
-Tem heroi, vilão, desfecho??
-sim!!
-Lê então ai meu.
Nessas horas que eu entendo como é recompensador lecionar...
Ele leu:
- Minha irmã é um E.T.
-.....òtimo....não se esqueceu do titulo.
Continuou com a folhinha na mão:
-Bom, em um dia frio tudo estava estranho eu era um homem forte e que voava. Eu fui estudar com minha irmã, até que do nada tudo ficou escuro. Acordei na nave no sec. 34 eu estranhei. Minha irmã começou a se rasgar a pele, e ela virou um e.t. meu deus!
Eu lutei mas ela nunca morria. Até que uma hora, ela soltou o bafo de leão, perdi meus movimentos, mas continuei sentindo dores, e ela o e.t., me cortou a barriga e arrancou meus orgãos e acabou-se tudo.
-...
-Gostou?
(seria)-É...quase uma obra prima para um menino de onze anos....
(silencio)
-Olha só, voce até colocou dois espaço-tempo diferentes...

sábado, 31 de maio de 2008

Venho recebendo muitas cartas, emails e ligações. Gostaria antes de tudo de agradecer-los, generosos leitores. Eis que recebi, esses dias, a respeito do texto "condutas..", esse esplendido logo a baixo. Conhecendo o autor, posso dizer que se trata de um ser etiquissímo!


Conduta Ética

por Estámira


dizer: "até logo amigo, agente se vê." E tacitamente concluir: " Com a escolha que fizeste nos separaste irremediavelmente, nem o destino inexoravel que leva a todos ao mesmo lugar poderia jamais no unir". e partir para a Sibéria cinco anos depois.

Não comer o pedaço de bolo da sua mãe e quando ela perguntar por ele dizer, como um filho imprudente e comum: "puts, mãe, nao resisti!" e choramingar fingidamente, lembrando que foi anti-etico dar o bolo ao menino que pedia mantimentos.


acabar um relacionamento via scrap dizendo: não é você sou eu. E o dizer sinceramente. Afinal com ele vc nao tinha tempo para ler kierkegaard.

acabar um relacionamento via scrap e fugir para berlim. Afinal ! "se me pedissem que explicasse minha conduta teria sido obrigado a iniciar meu noivo em pensamentos terriveis, nas relações com o meu pai, em minha melancolia insondavel, na noite eterna que vivo no mais intimo do meu ser."(Soren Kierkegaard)

Se acabar de beber numa noite e dizer no dia seguinte: não devia te-lo insultado. (afinal um ético embriagado antes julga e acusa, do que cede à tentações). in vino veritas, a verdade esta no vinho. Jamais um homem íntrego perderia a oportunidade da verdade com a concupiscencia.

Se acabar de beber numa noite e dizer no dia seguinte: sorte que era um jantar familiar e meus pais estavam lá pra me socorrer!

Se acabar de beber pela ultima vez e dizer no dia seguinte: Nunca mais.


comprimentar a todos na rua por que tem uma pequena intuição de que o bom humor é um dever ético. (Só nao cumprimentar os conhecidos, para nao haver perigo de entabularem conversas desnecessarias.)


-bastante despojada essa camisa xadrez, hein?

-...

E sair pensando que quer uma igual para o festa junina do ano que vem.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Ensinando o tropeço

Já era muito tarde quando começou a família Addams, versão 1964, na tv a cabo. Ela tinha sono e o pressentimento de sonhos ruins, não resistiria a força do cansaço não fosse pela ironia daquele seriado: "Há! uma família norte americana de insanos!" Se simpatizava com os personagens. Gomes, o patriarca, era a figura do bom amante divertido e do pai "exemplar", seu personagem preferido mais pela inocência ridícula do que por outra coisa, enquanto os outros cada qual com sua peculiaridade muito bem formulada lhe agradavam muito. Gostava disso: de peculiaridades bem formuladas. Ela admirava a coerência de cada integrante da família Addams. O Tropeço por exemplo: nunca deixaria de ser um Tropeço!

Aquele episodio conseguira arrancar as suas mais sinceras risadas, a tentativa de ensinar o mordomo Tropeço a dançar para o concurso de dança dos mordomos era senão trágico, cômico no sentido mais sádico que pode ter a palavra cômico. O Gomes sim, era um homem que sabia dançar. E como ela admirava os homens que sabiam dançar! Mas dançar como o Gomes não é balançar o corpo freneticamente como jovens nos dias de hoje, ansiosos e imediatistas, é desenvolver uma arte, é aprimorar toda uma cultura sedutora, afinal o tango não é para qualquer um. Agora, o tropeço dançando, que tragédia! Teve vontade de rir e chorar balançando a cabeça ao mesmo tempo.

Isso a lembrou que ela não sabia dançar. Baita frustração! Era desengonçada com os membros e tinha a mesma paciência que o tropeço para essas coisas, ou seja, nenhuma.

Só ai percebeu que o engraçado não era apenas a imagem de um monstrão tentando se requebrar, mas sim a imagem de um monstrão tentando se requebrar contra a sua vontade. O Tropeço era o tropeço e não um dançarino! E ponto. Desligou a tv algum tempo depois que o seriado terminara com ainda um sorriso no rosto, pensando em seus tropeços pelas ruas e como o ridículo é não só perdoável mas admirável. Quantos não conseguem desenvolver a arte do tropeço, ou melhor, a arte de se assumir ridículo! Tropeçar sem virar para o lado xingando deus e o mundo. Tropeçar por integridade!

O tropeço não ficaria bravo, afetado por uma ofensa. Ele nunca tomaria por uma ofensa não saber dançar, no mínimo desampotaria aqueles que tem alguma expectativa nele, e depois voltaria para o seu canto esperaria algum integrante da família puxar aquela corda que treme toda a casa, e iria com toda sua integridade de mordomo atende-los: chamoooou?

No caminho para o quarto tropeçando nos chinelos, lhe ocorreu o pensamento: Demoraria, ou ainda seria impossível, aprender a arte do Tropeço? Catou os dois chinelos com uma só mão os atirou no fim do corredor: "Se não se pode dançar como o Gomes, dance que nem o tropeço, só não dance que nem o Gomes sendo o tropeço" Era o cumulo da sensatez, o cerne do desenvolvimento da comédia, ou ainda uma máxima filosófica: "seja quem tu és".

A familia toda era sensatamente estranha. Isso que a fazia preferi-los aos Monstros, aquela famila mostruosa que age como seres humanos normais.

domingo, 25 de maio de 2008

Condutas...

...levianas:

Dizer "até logo meu amigo a gente se ve" e se mudar para marrakesh.

Comer o pedaço de bolo da sua mae e quando ela perguntar por ele, responder: ".. olha tá passando a feiticeira na tv!"

Acabar um relacionamento via scrap pelo orkut dizendo: "O problema não é vc sou eu".

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: " Ahh, ele? só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. O grande amor da minha vida nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, ela? Só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. Minha orientação sexual nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, aquele xamã anão? Só a experiencia carnal de uma noite. Minha sanidade mental nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Comprimentar todos na rua para não ter o engano de deixar de comprimentar um conhecido.

Cometer os maiores enganos por pura distração:
-Onde é a festa junina?
- ...
-Heim?
-Vai se fuder!
-Mas o qué que eu fiz?

...Tragicas:


Hamlet e seu fiel confidente Horacio.


Dizer "até logo meu amigo a gente se ve, pois o irresistivel e inexoravel destino nos leva a todos ao mesmo lugar " e se mudar para marrakesh.

Comer o pedaço de bolo da sua mae e quando ela perguntar por ele, responder: ".. Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a tua vã filosofia."

Acabar um relacionento via scrap pelo orkut dizendo: "O problema não é vc sou eu. Eu que não consigo suportar a tua presença angustiante e deprimente".

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: " Ahh, ele? A experiencia carnal de uma noite. Finalmente vou afetar o grande amor da minha vida! Pena que eu nem lembre direito..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, ela? Só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. Minha orientação sexual não vai se afetar por uma besteira dessa...Onde está aquela corda mesmo?"

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, aquele xamã anão? Só a experiencia carnal de uma noite. Minha sanidade mental não vai se afetar por uma besteira dessa!!...Um nó bem forte para não ter possibilidade de eu ficar paraplegico, isso, perfeito, agora no tres empurra esse banquinho pra mim, ok?"

Comprimentar todos na rua para não se esquecer de ser sarcastico perante um inimigo.

Fingir não cometer os maiores enganos por pura distração (para parecer que todos os atos são calculados):
-Onde é a festa junina?
- ...
-Heim?
-Vai se fuder!
-......Vai voce seu caipira! .. Essas camisas xadrez viu...Fico inconformado com quem acha que é bonito ser feio!

sábado, 24 de maio de 2008

Vaidades



Um artista não pode fugir da sina estética. Um artista é um esteticista, querendo ou não, um artista encarrega-se da representação e do espetáculo. Stephen Dedalus teve os maiores questionamentos existenciais e as maiores perturbações metafísicas possíveis, mas ele era um artista, o que o fez transformar deus em purpurinas teatrais e em versos cadenciados, legitimando a dor, a alegria, e o medo de sua juventude. Dedalus esteve entre o ser e o não ser profano, entre o ser e o não ser devoto, o jovem foi o artista que quis questionar a experiência e suas conseqüências, assumindo poucas vezes a leviandade e esperando em suas caminhadas noturnas o grande sinal metafísico da predestinação.
Era um vaidoso que só. Fazia experimentos corporais para provar sua resistência, e teve medo do inferno não como um cristão que o era fervorosamente, mas como desolado jovem em busca de significação. Em sua fase devota, era tão voluptuosamente obstinado que beirou o ridículo, embora convencesse quem estava ao seu redor. Se tornaria padre por estética, e morreria por deus pela irresistível intensidade. Era um jovem de extremos intensos. Era um jovem artista.
O compositor tem a vida á deriva da inspiração estudada, psicografada, estruturada em anos de estudos direcionados, vale lembrar que Dedalus tinha a Poética de Aristóteles como bíblia e a bíblia como poética.
Eu tenho um vizinho compositor. Sim: um obstinado musico. Por que para ser musico talvez diferente dos outros artistas, por mais medíocre que seja, deva se ter uma capacidade fora do comum de concentração, devoção, e ética utilitária. Ele me disse uma noite: Pois é, nós artistas sofremos, nós artistas somos vaidosos. Justificando a dificuldade que para os leigos, como eu no caso, parece inconcebível, como o ato de compor melodias em um piano. Ai estava a chave, chegando em casa fiquei inquieta, andando eufórica pelos corredores, pois era ela, era ela? içada nos poemas, a beleza, a vaidade, a mais antiga das pestes, o mais intenso dos pecados.
Mas como um obstinado, devoto, e extremamente coerente musico pode ter pecado? Eis a maior das inquietações de Dedalus. Eis a sordidez de se ser artista.
Mas todas as manhas escuto o compositor, e que prazer! E que êxtase! A arte não é um entorpecente, energumeno é quem acha isso, é uma verdade cruel, e um artista por natureza é um vaidoso pois vai até as ultimas conseqüências da representação do incompreensível, o que para mim faz dos Dedalus seres sinceros, e dos vizinhos musicos seres exemplares.
Nota: Stephen Dedalus é protagonista do romance " Retrato de um artista quando jovem" de James Joyce, é considerado alter ego do autor.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um jovem

A lembrança do destino dos amores frustrados lhe trazia a sombra de um sorriso no rosto. Era inegável que o rapaz possuía uma sutileza aguda na analise dos acontecimentos, alimentando suas frustrações pela irremediável mania de imaginar o conteúdo cômico das incorrespondêcias amorosas, assim como a hilariedade daqueles que possuem sonhos muito sérios.
Se o jovem já se apaixonara? Sim, claro. Ele lhe responderia com a pretensão de maturidade tão ansiada por alguns em certa idade. Quando passou uma reunião inteira prostrado ao lado de uma vitrola fingindo decorar o numero de voltas que cada disco dava enquanto ela rodava muito mais pela sala com a delicadeza que só a mulher desejada possui de distribuir atenções e gracejos á outrem, ele, como certamente todos algum dia, sentiu que compreendera o quão vão era a busca na outra alma de um semelhante. A partir daí quis se tornar um espirituoso das causas amorosas: procurava zombar de forma singela dos seres pretensiosos por grandes estórias de amor, não admitindo que elas não existissem, mas acreditando que a maioria delas era de engano e não amor. Reservava aos poucos romances de suas prateleiras e as sinfonias que estavam entre o período clássico e romântico as mais fortes emoções.
Teve assim casos levianos, mais pela conduta misturada com alguma timidez do que por vontade. E se algum curioso que observasse suas atitudes perguntar: “mas já teve o prazer de conhecer o amor?”, o jovem diria que sim, com aquela maturidade sarcástica que por vez mais parece a ausência de erros.
Ele esboçou um leve sorriso nos lábios, logo misturando-o com o bocejo de sono. Lembrou que amou intensamente uma mulher, mas que esta partiu para o sul antes que ele lhe pudesse confessar o amor. Na época fantasiava que quando ela retornasse lhe entregaria finalmente suas cartas (que mais eram poemas longuíssimos e sem ritmo). Se ela retornasse. Hoje talvez também entregasse as cartas se por um acaso a ocasião fosse pertinente. Lembrou também como ficara enojado por uma jovem que nunca mediu esforços para conquista-lo, fazendo-o se apaixonar, e que quando conseguiu seu intento o abandonara friamente. Virou para o lado da parede e puxou uma almofada contra si: As coisas não eram assim, fáceis, ela deveria ter sofrido tanto ou mais que ele. Pena, ele pensou, que não houvera um espírito esperto o bastante para dividir esse pensamento aflito.
As coisas eram complicadas. Repetiu irracionalmente essas palavras antes de cair em um profundo e tranqüilo sono.

domingo, 18 de maio de 2008

O começo de relações infrutiferas

Indiferença. Eis como o caso sempre começa. Se não, não começa...Esvai-se num delírio insano, numa manhã de esperanças novas...Começa sem expectativa de ser, de virar época, de intensidade. Menos preocupações ele acarreta, é leve, e é extremamente propicio. Começa sem mesmo saber que começa. Musica que não agrada e nem incomoda. Escutada nos caminhos para os lugares importantes onde ensaiam as orquestras de verdade. Bares, ruas e vazios lares com a melodia sem forma e sem fio. Ela desanda nos assobios vazios dos que ainda não amam. Não para todos...Digo aqui o que ocorre exclusivamente á mim... Não nutri esperança. Minha alma suspende-se inacessível e meu corpo a todas possibilidades aberto. Isso não demonstra falha de integridade, pelo contrario, é tão sem tormenta, sem abuso, sem grande pesar, que já faz parte da conduta.