"Certa vez no piano, depois de acabada sua quarta sinfonia, o príncipe estava tão cansado, cansado do castelo, cansado com suas composições e distrações, cansado das comidas bem conservadas, dos quartos grandes e vazios, cansado de sua juventude, que deixou sua cabeça quedar-se pesadamente no teclado do piano. O som foi tão forte que ressoou por todo o castelo. Ele ficou inconsciente por um minuto. Voltou a si com o som de sua eterna visita, a sua espera, rogando em suas batidas simétricas sua recepção.
O jovem príncipe martelou com sua cabeça o teclado novamente. E novamente com mais força. E mais uma vez. E por uma quarta vez, ainda mais intensa, machucou brutalmente as teclas de marfim.
Toc Toc Toc Toc. Ele a seguiu. Seguiu as mortais batidas dela com a cabeça no piano. Os muros do castelo tremeram com aquela violência, e ele, percorrendo toda extensão do teclado, murmurava: sol... lá.....mi.mi.... E não demorou á inserir uma melodia nas batidas com sua cabeça loira, vasta de cachos. Aos poucos foi nascendo nele uma sensação... Sentiu como uma Alegria.Uma Alegria que fez escorrer de seus olhos a mais branda lágrima. Toc Toc Toc Toc. Ele á acompanhava – Sol, lá , mi, ré – E assim continuou, sentindo-se poderoso pela primeira vez ao tocar finalmente com as mãos. “Há!” riu de um modo um tanto quanto maníaco, “És tu a minha musa?”.
(...)
No outro dia o príncipe já não era jovem. Vendo-se refletido, logo pela manhã e ocasionalmente nas louças de metal da copa, percebeu em seu rosto profundas trincheiras de carne flácida, olheiras fortes e sombrias, e que seus lábios haviam murchado como uma ameixa seca, no entanto nunca se sentira tão vigoroso. Também notou que uma clareira se delineava em sua cabeleira sempre tão vasta. Nunca teve tanto orgulho.
(...)
Do alto da escada acenou para os criados (que naquele dia retornaram a casa) e ordenou que preparassem o melhor chá da reserva. Ordenou também que concertassem o relógio do salão de jantas, que limpassem os jardins e arrumassem toda a bagunça que ele havia feito durante aqueles anos. Passando-se metade de uma hora, o velho príncipe precipitou-se á porta.
Toc Toc Toc Toc. As batidas continuavam iguais ao primeiro dia que ele as havia escutado, rústicas, limpas, claras. Ele não: Ele se tornara mais nobre.
Altivo, porem sóbrio, foi ele mesmo, sem cerimonial, abrir a porta principal. Ao virar a fechadura adornada fez-se um silencio de morte.
Frente a frente com sua visita, o príncipe não titubeou:
'Entre. És a minha convidada...'"
Frente a frente com sua visita, o príncipe não titubeou:
'Entre. És a minha convidada...'"