segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um jovem

A lembrança do destino dos amores frustrados lhe trazia a sombra de um sorriso no rosto. Era inegável que o rapaz possuía uma sutileza aguda na analise dos acontecimentos, alimentando suas frustrações pela irremediável mania de imaginar o conteúdo cômico das incorrespondêcias amorosas, assim como a hilariedade daqueles que possuem sonhos muito sérios.
Se o jovem já se apaixonara? Sim, claro. Ele lhe responderia com a pretensão de maturidade tão ansiada por alguns em certa idade. Quando passou uma reunião inteira prostrado ao lado de uma vitrola fingindo decorar o numero de voltas que cada disco dava enquanto ela rodava muito mais pela sala com a delicadeza que só a mulher desejada possui de distribuir atenções e gracejos á outrem, ele, como certamente todos algum dia, sentiu que compreendera o quão vão era a busca na outra alma de um semelhante. A partir daí quis se tornar um espirituoso das causas amorosas: procurava zombar de forma singela dos seres pretensiosos por grandes estórias de amor, não admitindo que elas não existissem, mas acreditando que a maioria delas era de engano e não amor. Reservava aos poucos romances de suas prateleiras e as sinfonias que estavam entre o período clássico e romântico as mais fortes emoções.
Teve assim casos levianos, mais pela conduta misturada com alguma timidez do que por vontade. E se algum curioso que observasse suas atitudes perguntar: “mas já teve o prazer de conhecer o amor?”, o jovem diria que sim, com aquela maturidade sarcástica que por vez mais parece a ausência de erros.
Ele esboçou um leve sorriso nos lábios, logo misturando-o com o bocejo de sono. Lembrou que amou intensamente uma mulher, mas que esta partiu para o sul antes que ele lhe pudesse confessar o amor. Na época fantasiava que quando ela retornasse lhe entregaria finalmente suas cartas (que mais eram poemas longuíssimos e sem ritmo). Se ela retornasse. Hoje talvez também entregasse as cartas se por um acaso a ocasião fosse pertinente. Lembrou também como ficara enojado por uma jovem que nunca mediu esforços para conquista-lo, fazendo-o se apaixonar, e que quando conseguiu seu intento o abandonara friamente. Virou para o lado da parede e puxou uma almofada contra si: As coisas não eram assim, fáceis, ela deveria ter sofrido tanto ou mais que ele. Pena, ele pensou, que não houvera um espírito esperto o bastante para dividir esse pensamento aflito.
As coisas eram complicadas. Repetiu irracionalmente essas palavras antes de cair em um profundo e tranqüilo sono.

Nenhum comentário: