sábado, 31 de maio de 2008

Venho recebendo muitas cartas, emails e ligações. Gostaria antes de tudo de agradecer-los, generosos leitores. Eis que recebi, esses dias, a respeito do texto "condutas..", esse esplendido logo a baixo. Conhecendo o autor, posso dizer que se trata de um ser etiquissímo!


Conduta Ética

por Estámira


dizer: "até logo amigo, agente se vê." E tacitamente concluir: " Com a escolha que fizeste nos separaste irremediavelmente, nem o destino inexoravel que leva a todos ao mesmo lugar poderia jamais no unir". e partir para a Sibéria cinco anos depois.

Não comer o pedaço de bolo da sua mãe e quando ela perguntar por ele dizer, como um filho imprudente e comum: "puts, mãe, nao resisti!" e choramingar fingidamente, lembrando que foi anti-etico dar o bolo ao menino que pedia mantimentos.


acabar um relacionamento via scrap dizendo: não é você sou eu. E o dizer sinceramente. Afinal com ele vc nao tinha tempo para ler kierkegaard.

acabar um relacionamento via scrap e fugir para berlim. Afinal ! "se me pedissem que explicasse minha conduta teria sido obrigado a iniciar meu noivo em pensamentos terriveis, nas relações com o meu pai, em minha melancolia insondavel, na noite eterna que vivo no mais intimo do meu ser."(Soren Kierkegaard)

Se acabar de beber numa noite e dizer no dia seguinte: não devia te-lo insultado. (afinal um ético embriagado antes julga e acusa, do que cede à tentações). in vino veritas, a verdade esta no vinho. Jamais um homem íntrego perderia a oportunidade da verdade com a concupiscencia.

Se acabar de beber numa noite e dizer no dia seguinte: sorte que era um jantar familiar e meus pais estavam lá pra me socorrer!

Se acabar de beber pela ultima vez e dizer no dia seguinte: Nunca mais.


comprimentar a todos na rua por que tem uma pequena intuição de que o bom humor é um dever ético. (Só nao cumprimentar os conhecidos, para nao haver perigo de entabularem conversas desnecessarias.)


-bastante despojada essa camisa xadrez, hein?

-...

E sair pensando que quer uma igual para o festa junina do ano que vem.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Ensinando o tropeço

Já era muito tarde quando começou a família Addams, versão 1964, na tv a cabo. Ela tinha sono e o pressentimento de sonhos ruins, não resistiria a força do cansaço não fosse pela ironia daquele seriado: "Há! uma família norte americana de insanos!" Se simpatizava com os personagens. Gomes, o patriarca, era a figura do bom amante divertido e do pai "exemplar", seu personagem preferido mais pela inocência ridícula do que por outra coisa, enquanto os outros cada qual com sua peculiaridade muito bem formulada lhe agradavam muito. Gostava disso: de peculiaridades bem formuladas. Ela admirava a coerência de cada integrante da família Addams. O Tropeço por exemplo: nunca deixaria de ser um Tropeço!

Aquele episodio conseguira arrancar as suas mais sinceras risadas, a tentativa de ensinar o mordomo Tropeço a dançar para o concurso de dança dos mordomos era senão trágico, cômico no sentido mais sádico que pode ter a palavra cômico. O Gomes sim, era um homem que sabia dançar. E como ela admirava os homens que sabiam dançar! Mas dançar como o Gomes não é balançar o corpo freneticamente como jovens nos dias de hoje, ansiosos e imediatistas, é desenvolver uma arte, é aprimorar toda uma cultura sedutora, afinal o tango não é para qualquer um. Agora, o tropeço dançando, que tragédia! Teve vontade de rir e chorar balançando a cabeça ao mesmo tempo.

Isso a lembrou que ela não sabia dançar. Baita frustração! Era desengonçada com os membros e tinha a mesma paciência que o tropeço para essas coisas, ou seja, nenhuma.

Só ai percebeu que o engraçado não era apenas a imagem de um monstrão tentando se requebrar, mas sim a imagem de um monstrão tentando se requebrar contra a sua vontade. O Tropeço era o tropeço e não um dançarino! E ponto. Desligou a tv algum tempo depois que o seriado terminara com ainda um sorriso no rosto, pensando em seus tropeços pelas ruas e como o ridículo é não só perdoável mas admirável. Quantos não conseguem desenvolver a arte do tropeço, ou melhor, a arte de se assumir ridículo! Tropeçar sem virar para o lado xingando deus e o mundo. Tropeçar por integridade!

O tropeço não ficaria bravo, afetado por uma ofensa. Ele nunca tomaria por uma ofensa não saber dançar, no mínimo desampotaria aqueles que tem alguma expectativa nele, e depois voltaria para o seu canto esperaria algum integrante da família puxar aquela corda que treme toda a casa, e iria com toda sua integridade de mordomo atende-los: chamoooou?

No caminho para o quarto tropeçando nos chinelos, lhe ocorreu o pensamento: Demoraria, ou ainda seria impossível, aprender a arte do Tropeço? Catou os dois chinelos com uma só mão os atirou no fim do corredor: "Se não se pode dançar como o Gomes, dance que nem o tropeço, só não dance que nem o Gomes sendo o tropeço" Era o cumulo da sensatez, o cerne do desenvolvimento da comédia, ou ainda uma máxima filosófica: "seja quem tu és".

A familia toda era sensatamente estranha. Isso que a fazia preferi-los aos Monstros, aquela famila mostruosa que age como seres humanos normais.

domingo, 25 de maio de 2008

Condutas...

...levianas:

Dizer "até logo meu amigo a gente se ve" e se mudar para marrakesh.

Comer o pedaço de bolo da sua mae e quando ela perguntar por ele, responder: ".. olha tá passando a feiticeira na tv!"

Acabar um relacionamento via scrap pelo orkut dizendo: "O problema não é vc sou eu".

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: " Ahh, ele? só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. O grande amor da minha vida nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, ela? Só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. Minha orientação sexual nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, aquele xamã anão? Só a experiencia carnal de uma noite. Minha sanidade mental nem vai se afetar por uma besteira dessa..."

Comprimentar todos na rua para não ter o engano de deixar de comprimentar um conhecido.

Cometer os maiores enganos por pura distração:
-Onde é a festa junina?
- ...
-Heim?
-Vai se fuder!
-Mas o qué que eu fiz?

...Tragicas:


Hamlet e seu fiel confidente Horacio.


Dizer "até logo meu amigo a gente se ve, pois o irresistivel e inexoravel destino nos leva a todos ao mesmo lugar " e se mudar para marrakesh.

Comer o pedaço de bolo da sua mae e quando ela perguntar por ele, responder: ".. Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a tua vã filosofia."

Acabar um relacionento via scrap pelo orkut dizendo: "O problema não é vc sou eu. Eu que não consigo suportar a tua presença angustiante e deprimente".

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: " Ahh, ele? A experiencia carnal de uma noite. Finalmente vou afetar o grande amor da minha vida! Pena que eu nem lembre direito..."

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, ela? Só a experiencia carnal de uma noite, nem lembro direito. Minha orientação sexual não vai se afetar por uma besteira dessa...Onde está aquela corda mesmo?"

Se acabar de tanto beber numa noite e dizer no dia seguinte: "Ahh, aquele xamã anão? Só a experiencia carnal de uma noite. Minha sanidade mental não vai se afetar por uma besteira dessa!!...Um nó bem forte para não ter possibilidade de eu ficar paraplegico, isso, perfeito, agora no tres empurra esse banquinho pra mim, ok?"

Comprimentar todos na rua para não se esquecer de ser sarcastico perante um inimigo.

Fingir não cometer os maiores enganos por pura distração (para parecer que todos os atos são calculados):
-Onde é a festa junina?
- ...
-Heim?
-Vai se fuder!
-......Vai voce seu caipira! .. Essas camisas xadrez viu...Fico inconformado com quem acha que é bonito ser feio!

sábado, 24 de maio de 2008

Vaidades



Um artista não pode fugir da sina estética. Um artista é um esteticista, querendo ou não, um artista encarrega-se da representação e do espetáculo. Stephen Dedalus teve os maiores questionamentos existenciais e as maiores perturbações metafísicas possíveis, mas ele era um artista, o que o fez transformar deus em purpurinas teatrais e em versos cadenciados, legitimando a dor, a alegria, e o medo de sua juventude. Dedalus esteve entre o ser e o não ser profano, entre o ser e o não ser devoto, o jovem foi o artista que quis questionar a experiência e suas conseqüências, assumindo poucas vezes a leviandade e esperando em suas caminhadas noturnas o grande sinal metafísico da predestinação.
Era um vaidoso que só. Fazia experimentos corporais para provar sua resistência, e teve medo do inferno não como um cristão que o era fervorosamente, mas como desolado jovem em busca de significação. Em sua fase devota, era tão voluptuosamente obstinado que beirou o ridículo, embora convencesse quem estava ao seu redor. Se tornaria padre por estética, e morreria por deus pela irresistível intensidade. Era um jovem de extremos intensos. Era um jovem artista.
O compositor tem a vida á deriva da inspiração estudada, psicografada, estruturada em anos de estudos direcionados, vale lembrar que Dedalus tinha a Poética de Aristóteles como bíblia e a bíblia como poética.
Eu tenho um vizinho compositor. Sim: um obstinado musico. Por que para ser musico talvez diferente dos outros artistas, por mais medíocre que seja, deva se ter uma capacidade fora do comum de concentração, devoção, e ética utilitária. Ele me disse uma noite: Pois é, nós artistas sofremos, nós artistas somos vaidosos. Justificando a dificuldade que para os leigos, como eu no caso, parece inconcebível, como o ato de compor melodias em um piano. Ai estava a chave, chegando em casa fiquei inquieta, andando eufórica pelos corredores, pois era ela, era ela? içada nos poemas, a beleza, a vaidade, a mais antiga das pestes, o mais intenso dos pecados.
Mas como um obstinado, devoto, e extremamente coerente musico pode ter pecado? Eis a maior das inquietações de Dedalus. Eis a sordidez de se ser artista.
Mas todas as manhas escuto o compositor, e que prazer! E que êxtase! A arte não é um entorpecente, energumeno é quem acha isso, é uma verdade cruel, e um artista por natureza é um vaidoso pois vai até as ultimas conseqüências da representação do incompreensível, o que para mim faz dos Dedalus seres sinceros, e dos vizinhos musicos seres exemplares.
Nota: Stephen Dedalus é protagonista do romance " Retrato de um artista quando jovem" de James Joyce, é considerado alter ego do autor.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um jovem

A lembrança do destino dos amores frustrados lhe trazia a sombra de um sorriso no rosto. Era inegável que o rapaz possuía uma sutileza aguda na analise dos acontecimentos, alimentando suas frustrações pela irremediável mania de imaginar o conteúdo cômico das incorrespondêcias amorosas, assim como a hilariedade daqueles que possuem sonhos muito sérios.
Se o jovem já se apaixonara? Sim, claro. Ele lhe responderia com a pretensão de maturidade tão ansiada por alguns em certa idade. Quando passou uma reunião inteira prostrado ao lado de uma vitrola fingindo decorar o numero de voltas que cada disco dava enquanto ela rodava muito mais pela sala com a delicadeza que só a mulher desejada possui de distribuir atenções e gracejos á outrem, ele, como certamente todos algum dia, sentiu que compreendera o quão vão era a busca na outra alma de um semelhante. A partir daí quis se tornar um espirituoso das causas amorosas: procurava zombar de forma singela dos seres pretensiosos por grandes estórias de amor, não admitindo que elas não existissem, mas acreditando que a maioria delas era de engano e não amor. Reservava aos poucos romances de suas prateleiras e as sinfonias que estavam entre o período clássico e romântico as mais fortes emoções.
Teve assim casos levianos, mais pela conduta misturada com alguma timidez do que por vontade. E se algum curioso que observasse suas atitudes perguntar: “mas já teve o prazer de conhecer o amor?”, o jovem diria que sim, com aquela maturidade sarcástica que por vez mais parece a ausência de erros.
Ele esboçou um leve sorriso nos lábios, logo misturando-o com o bocejo de sono. Lembrou que amou intensamente uma mulher, mas que esta partiu para o sul antes que ele lhe pudesse confessar o amor. Na época fantasiava que quando ela retornasse lhe entregaria finalmente suas cartas (que mais eram poemas longuíssimos e sem ritmo). Se ela retornasse. Hoje talvez também entregasse as cartas se por um acaso a ocasião fosse pertinente. Lembrou também como ficara enojado por uma jovem que nunca mediu esforços para conquista-lo, fazendo-o se apaixonar, e que quando conseguiu seu intento o abandonara friamente. Virou para o lado da parede e puxou uma almofada contra si: As coisas não eram assim, fáceis, ela deveria ter sofrido tanto ou mais que ele. Pena, ele pensou, que não houvera um espírito esperto o bastante para dividir esse pensamento aflito.
As coisas eram complicadas. Repetiu irracionalmente essas palavras antes de cair em um profundo e tranqüilo sono.

domingo, 18 de maio de 2008

O começo de relações infrutiferas

Indiferença. Eis como o caso sempre começa. Se não, não começa...Esvai-se num delírio insano, numa manhã de esperanças novas...Começa sem expectativa de ser, de virar época, de intensidade. Menos preocupações ele acarreta, é leve, e é extremamente propicio. Começa sem mesmo saber que começa. Musica que não agrada e nem incomoda. Escutada nos caminhos para os lugares importantes onde ensaiam as orquestras de verdade. Bares, ruas e vazios lares com a melodia sem forma e sem fio. Ela desanda nos assobios vazios dos que ainda não amam. Não para todos...Digo aqui o que ocorre exclusivamente á mim... Não nutri esperança. Minha alma suspende-se inacessível e meu corpo a todas possibilidades aberto. Isso não demonstra falha de integridade, pelo contrario, é tão sem tormenta, sem abuso, sem grande pesar, que já faz parte da conduta.