sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Conquistas


Tudo resumia-se nisso: A arte de seduzir e atrair a maior quantidade de coisas para si. Casos furtivos, amizades verdadeiras, boas oportunidades, tarefas honrosas, apreciadores, gente pertinente, críticas construtivas, amores intensos e passageiros...Esse é o artesanato da modernidade, essa é a saga do homem liberal.
Um bom sedutor tem sucesso garantido, é fato. No entanto, não pode assegurar algo como “uma felicidade tranqüila” ou qualquer coisa que se assemelhe a uma serenidade sincera. Para o conquistador permanecerá um vácuo, um vazio, uma eterna duvida do que vem depois de ter, como um ímã caótico, atraído para si todo um universo. É o exemplo clássico do bem sucedido que pira, que depois da fama e fortuna se acaba em achismos existenciais.
Mas, o que importa, claro, é o sucesso. E a sensação de se ter “vivido”...Ah..isso é essencial! Faz-se necessário, para tanto, costurar estórias, bordar casos, emendar acasos, elevando o que seria uma existência medíocre a uma sensação de se ter vivido com dignidade, dignidade esta concedida pela audácia da conquista individual.
É bom lembrar que um verdadeiro sedutor é, antes de tudo, um bom fingidor. Essa seria a regra numero um, nomeada mais singelamente de “pertinência”. Palavras como virtuosismo ou Excelência, cedem lugar à galanteamento, à audácia. Mas quê é isso senão o inevitável espírito empreendedor moderno contra o espírito antigo da Virtu, da arte da Excelência?
Enfim, Tudo resumia-se a isso. Nas casas, nas ruas, no comercio. Nas escolas, nas festas, nos grupos e associações. Não poderia dizer que fugi dessa toante, não, não fugi. Embora os antigos me fascinem demais, não há escapatória, sou uma moderna. Embora muito pouco bem sucedida, embora em tudo romântica e antiga, viver nesse mundo é estar sempre no meio de insinuações, de galanteios, de fascinações asquerosas e muito bem adaptadas, é gozar de uma liberdade a custo de um sonho qualquer, a custo de se aprender como se conquista. Desde pequenos, isso é ensinado: A arte da conquista. Senão não se vive aqui, se isola, assume-se (rs) um “isolamento social”.
Um samurai, um maestro, um eremita: A manifestação explicita de uma arte que se perdeu!! Ai como eu adimiro os virtuosos remanescentes.... Os samurais já não existem mais, e os eremitas e os maestros são considerados loucos... Mas os maestros? Você pode me perguntar, e eu lhe respondo: Sim! Os maestros que passam 49 anos trancafiados em um conservatório musical e saem de lá meia-boca! Se isso fosse em outro tempo...Não aconteceria. Até os pobres dos padres perderam a credibilidade....Todos tornaram-se uns sedutores, uns nojentos conquistadores, ou então morreram saudosos, inadaptados.
Tudo resumiu-se nisso. E resume-se para os espíritos pobres e para os homens de sucesso.
No entanto para o Velho Tadeu, amigo meu, homem de pouquíssimo sucesso e de espírito apurado (ó grande ironia moderna!) tudo resume-se a poucas lembranças e a falta de perspectivas.
Enquanto eu, odiando essa balela liberal, e no entanto filha prodiga do iluminismo, me deparo frente essa grande questão, já que me é impossível a virtu em algo (coloco aqui as tentativas na musica, no teatro, na religião, nas artes, já que nunca entrarei num convento, virarei um samurai, e muito menos um maestro) o que resta é tentar conquistar algo lá longe, com os métodos modernos, seduzindo, seduzindo, seduzindo. O custo, como já disse, é a paz de espirito. E quem a possui nessa época? Nem o mais sábio dos homens! Que hoje é considerado um anti-sociedade. É um marginal.
Eis a questão: não adaptar-se para melhor julgar, ou ceder ao espirito audaz da competitividade e conquista para construir alguma coisa.

Um comentário:

Tereza Tabosa disse...

Fernanda,
imagino que quem escolheu a audácia escolheu a si próprio. Qualquer vontade que, neste caso, se direcione a alguma coisa sincera com os homens é mera contingencia. Ao menos no que se trata de amizades verdadeiras e tarefas honrosas. Quanto aos apreciadores, os amores intensos, as criticas construtivas, etc, que vc proprio citou, sao até por demais conciliaveis com um homem audaz. Mas não algumas poucas coisas, como as que primeiro citei, imagino. Pois estas são demais penosas a um homem moderno, ao requerer a necessaria perda de oportunidades. A resignação em muitos casos, e uma estreiteza de interesses e gostos que certamente sufocariam de tédio uma criatura impaciente e audaz. Hoje já nao creio que seja melhor uma coisa ou outra, sei apenas que ambas as escolhas se submetem uma hora ou outra, à miriades de indignidades. Mas ambas possuem também, ao que desejo crer, uma satisfação, de modo que a cada dia essa escolha parece mais incisiva, audaz, sim, pois é preciso audácia tambem para a solidão.
A verdade é que parece que me tornei o que sempre pensei ser honroso. Compreendi de certo modo, aquele aforismo do frederico, "és tu que é feito...a todo momento", de modo que nao saber ao certo o que
se quer, é também uma eventualidade, já que nada é mais voluvel e fugaz qeu as perspectivas e a esperança, nada mais que imagens fugidias que se inserem por minutos numa musica breve.
E a verdade é que nesse ambição, de tornar a ser qualquer coisa, muito da propria honrosa tarefa que nos destinamos é obscurecida pela obtusa ideia que fazemos dela. E por fim, percebi que é tao dificl encontrar a honra fora de mim, como dentro!, certo, ouvi os imperativos mais alemaes, e a eles atendi. "torna-te quem tu és", etc. Tornei-me?, E agora que nao é mais possivel retornar a essa audácia construtiva como tua bem dizes, por que a solidão nao me torna solidario nem vaidoso para querer as honras dos outros, a honra do mundo?
honra-los? eu, que já sei que nem os mais sinceros, como eu pensei ser, sao honrados?
é um coconuts.
um verdadeiro coconuts. Um timido consolo é a crescente oportunidade das balas perdidas.
o segredo
Deus
A verdade é que ainda apelo a dignidade, custa tao caro quanto saber o que quer. Um preço, infelizmente muito suscetivel de varioções. E o poente no Céu se estende, muitos dias, com a mesma indagação: Estou certo? Valera a pena?