terça-feira, 27 de maio de 2008

Ensinando o tropeço

Já era muito tarde quando começou a família Addams, versão 1964, na tv a cabo. Ela tinha sono e o pressentimento de sonhos ruins, não resistiria a força do cansaço não fosse pela ironia daquele seriado: "Há! uma família norte americana de insanos!" Se simpatizava com os personagens. Gomes, o patriarca, era a figura do bom amante divertido e do pai "exemplar", seu personagem preferido mais pela inocência ridícula do que por outra coisa, enquanto os outros cada qual com sua peculiaridade muito bem formulada lhe agradavam muito. Gostava disso: de peculiaridades bem formuladas. Ela admirava a coerência de cada integrante da família Addams. O Tropeço por exemplo: nunca deixaria de ser um Tropeço!

Aquele episodio conseguira arrancar as suas mais sinceras risadas, a tentativa de ensinar o mordomo Tropeço a dançar para o concurso de dança dos mordomos era senão trágico, cômico no sentido mais sádico que pode ter a palavra cômico. O Gomes sim, era um homem que sabia dançar. E como ela admirava os homens que sabiam dançar! Mas dançar como o Gomes não é balançar o corpo freneticamente como jovens nos dias de hoje, ansiosos e imediatistas, é desenvolver uma arte, é aprimorar toda uma cultura sedutora, afinal o tango não é para qualquer um. Agora, o tropeço dançando, que tragédia! Teve vontade de rir e chorar balançando a cabeça ao mesmo tempo.

Isso a lembrou que ela não sabia dançar. Baita frustração! Era desengonçada com os membros e tinha a mesma paciência que o tropeço para essas coisas, ou seja, nenhuma.

Só ai percebeu que o engraçado não era apenas a imagem de um monstrão tentando se requebrar, mas sim a imagem de um monstrão tentando se requebrar contra a sua vontade. O Tropeço era o tropeço e não um dançarino! E ponto. Desligou a tv algum tempo depois que o seriado terminara com ainda um sorriso no rosto, pensando em seus tropeços pelas ruas e como o ridículo é não só perdoável mas admirável. Quantos não conseguem desenvolver a arte do tropeço, ou melhor, a arte de se assumir ridículo! Tropeçar sem virar para o lado xingando deus e o mundo. Tropeçar por integridade!

O tropeço não ficaria bravo, afetado por uma ofensa. Ele nunca tomaria por uma ofensa não saber dançar, no mínimo desampotaria aqueles que tem alguma expectativa nele, e depois voltaria para o seu canto esperaria algum integrante da família puxar aquela corda que treme toda a casa, e iria com toda sua integridade de mordomo atende-los: chamoooou?

No caminho para o quarto tropeçando nos chinelos, lhe ocorreu o pensamento: Demoraria, ou ainda seria impossível, aprender a arte do Tropeço? Catou os dois chinelos com uma só mão os atirou no fim do corredor: "Se não se pode dançar como o Gomes, dance que nem o tropeço, só não dance que nem o Gomes sendo o tropeço" Era o cumulo da sensatez, o cerne do desenvolvimento da comédia, ou ainda uma máxima filosófica: "seja quem tu és".

A familia toda era sensatamente estranha. Isso que a fazia preferi-los aos Monstros, aquela famila mostruosa que age como seres humanos normais.

Nenhum comentário: