sábado, 12 de julho de 2008

O Castelo

Um pequeno fragmento do conto:

"Certa vez no piano, depois de acabada sua quarta sinfonia, o príncipe estava tão cansado, cansado do castelo, cansado com suas composições e distrações, cansado das comidas bem conservadas, dos quartos grandes e vazios, cansado de sua juventude, que deixou sua cabeça quedar-se pesadamente no teclado do piano. O som foi tão forte que ressoou por todo o castelo. Ele ficou inconsciente por um minuto. Voltou a si com o som de sua eterna visita, a sua espera, rogando em suas batidas simétricas sua recepção.

O jovem príncipe martelou com sua cabeça o teclado novamente. E novamente com mais força. E mais uma vez. E por uma quarta vez, ainda mais intensa, machucou brutalmente as teclas de marfim.

Toc Toc Toc Toc. Ele a seguiu. Seguiu as mortais batidas dela com a cabeça no piano. Os muros do castelo tremeram com aquela violência, e ele, percorrendo toda extensão do teclado, murmurava: sol... lá.....mi.mi.... E não demorou á inserir uma melodia nas batidas com sua cabeça loira, vasta de cachos. Aos poucos foi nascendo nele uma sensação... Sentiu como uma Alegria.Uma Alegria que fez escorrer de seus olhos a mais branda lágrima. Toc Toc Toc Toc. Ele á acompanhava – Sol, lá , mi, ré – E assim continuou, sentindo-se poderoso pela primeira vez ao tocar finalmente com as mãos. “Há!” riu de um modo um tanto quanto maníaco, “És tu a minha musa?”.
(...)

No outro dia o príncipe já não era jovem. Vendo-se refletido, logo pela manhã e ocasionalmente nas louças de metal da copa, percebeu em seu rosto profundas trincheiras de carne flácida, olheiras fortes e sombrias, e que seus lábios haviam murchado como uma ameixa seca, no entanto nunca se sentira tão vigoroso. Também notou que uma clareira se delineava em sua cabeleira sempre tão vasta. Nunca teve tanto orgulho.

(...)

Do alto da escada acenou para os criados (que naquele dia retornaram a casa) e ordenou que preparassem o melhor chá da reserva. Ordenou também que concertassem o relógio do salão de jantas, que limpassem os jardins e arrumassem toda a bagunça que ele havia feito durante aqueles anos. Passando-se metade de uma hora, o velho príncipe precipitou-se á porta.
Toc Toc Toc Toc. As batidas continuavam iguais ao primeiro dia que ele as havia escutado, rústicas, limpas, claras. Ele não: Ele se tornara mais nobre.
Altivo, porem sóbrio, foi ele mesmo, sem cerimonial, abrir a porta principal. Ao virar a fechadura adornada fez-se um silencio de morte.
Frente a frente com sua visita, o príncipe não titubeou:
'Entre. És a minha convidada...'"

domingo, 29 de junho de 2008

Vontades Latino Americanas


"De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí"

Chan Chan -Buena Vista Social Club


http://www.deezer.com/track/7063


Me vem assim, de uma musica, a vontade tão imensa de partir. Descalça, Jovem, assim mesmo: Kerouac latino americana! Viajante Solitária!
Buena Vista me faz um partidor, um ser sem lar, vagabundo repentino, sem ideologia, sem final. Como quem não resiste ao bolero e a salsa. Seduzido brutamente pelo charme. Pelos prazeres efêmeros de um mundo desconhecido...
Ah! É pura vontade! Vontade de rostos, de corpos, de línguas. Vontade de arquiteturas decadentes, coloridas, de antigos casebres com tubulação aparente, de carros colecionáveis, vontade de cidades interioranas com pequeninas igrejas, vontade de cidades perdidas no tempo, vontade do passado, de ruínas de impérios, de ruínas de cantores de radio, e vontade de campos extensos, de cabarés á beira de estradas, de estradas.
Vontade de dançar com vinho espalhado nos lábios apostando a ultima moeda por um amor não correspondido!
É clichê. Sim. Sonho lúdico de criança...Quando ouço essas musicas desejo noites estreladas infinitas, aventuras distantes e dias quentes em lugares exóticos...Quero desterrar os pés e me afogar no continente...
Poderia ser um Violeiro.. Cantador de ilusões por caminhos misteriosos, cantando as promessas feitas em cada cidade, cantando pequeninas descobertas, estrangeiro perpétuo...
...Mil lares, incontáveis amores, inúmeros conhecidos...
É o que essas musicas em espanhol fazem á mim..incitam esse ardente desejo por viagens, por partidas. Vontade de se tornar estrangeiro e de conhecer esse estereótipo latino decadente, algo que de fato é corriqueiro, só que nos sonhos musicais se torna fantástico, intenso demais para um coração esperançoso e romântico como o meu.


quinta-feira, 26 de junho de 2008

Piêrro

" A colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim...
Dizendo: Pierrô o cacete! Vai tomar sorvete com o Arlequim!"
Um pierrô apaixonado- Noel Rosa


Tem desse amigo ao menos um soneto
Por essa dor que pensava ser derradeira!
Eu que sei, não passa de brincadeira
Comove-me esse teu cético tormento

Só o pierrô e o idiota vivem à beira
Entoando cações e sofrendo lento
Num gole tornando a magoa acalento
Virando a alma como um copo a esgueira

Segue leve amigo, não leva a sério
Vida é curta e vão é no mundo pilhar
Para tanto permanece sempre ébrio

Com sofredores na mesa de bilhar
E esquece a ingrata. Não é este o seu mistério?
Rir do amor morrendo por um olhar?

terça-feira, 17 de junho de 2008

... ...

Jovem, jovem
Quem pode assegurar algo?
Eternidade:
A felicidade é longe!

Que reste a beleza
Ficando assim um retrato
Ou um sadio hálito
Das noites de vigília.

Há! Vive assim, vadio.
Sem punhal, sem orla
Não é fundo, nem é raso.
É só.

Dia de inverno,
É novo:
Quer o perfume das fumaças
Das comidas dos jantares.

Quer uma foto do por-do-sol,
Um filme antigo,
Um beijo de criança,
E nenhuma garantia.

Anda desleixado.
Acha que pode ter um ataque
Fulminante!
Ah! Pobre jovem!

Se ri á toa.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Shakespeareanas

Ótima ofensa:

" Que esse orgulho, que ela chama franqueza, case com ela."

(rei lear)

domingo, 8 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Os prazeres de lecionar!

Foi quando expliquei á ele a estrutura da narrativa ficcional:

-Então entendeu? Um estória tem que ter um heroi, um vilão, uma trama e um solução para essa trama..
-Ah, eu gosto de fazer da minha cabeça mesmo!
(folheando o livro) - ...hum..tem que ter um espaço e um tempo....
-mas eu faço sem pensar...
-Tá! mas para se criar uma boa estoria esse é o modelo! Muito bem, então eu quero que voce me faça uma estoria com todas essas caracteristicas.
O meu irmão de 11 anos então a fez. Fez sim:
-Pronto. mas deixa eu ler senão voce não vai entender...
-Tem heroi, vilão, desfecho??
-sim!!
-Lê então ai meu.
Nessas horas que eu entendo como é recompensador lecionar...
Ele leu:
- Minha irmã é um E.T.
-.....òtimo....não se esqueceu do titulo.
Continuou com a folhinha na mão:
-Bom, em um dia frio tudo estava estranho eu era um homem forte e que voava. Eu fui estudar com minha irmã, até que do nada tudo ficou escuro. Acordei na nave no sec. 34 eu estranhei. Minha irmã começou a se rasgar a pele, e ela virou um e.t. meu deus!
Eu lutei mas ela nunca morria. Até que uma hora, ela soltou o bafo de leão, perdi meus movimentos, mas continuei sentindo dores, e ela o e.t., me cortou a barriga e arrancou meus orgãos e acabou-se tudo.
-...
-Gostou?
(seria)-É...quase uma obra prima para um menino de onze anos....
(silencio)
-Olha só, voce até colocou dois espaço-tempo diferentes...