sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

Eu espero,
Escutando o radio, passeando nas ruas, limpando o quarto.
Nenhuma pintura me chama a atenção
E não tenho disposição para lamentos.
Sou mais uma mulher derramada na janela, sem ter no que pensar,
Do que o sóbrio louco poeta desencravando as unhas da existência.
Durmo muito durante a noite.
E tenho mais sonhos que planos.
Não tenho disposição para desejos ardentes,
Sou mais um bêbado por languidez,
Do que o ébrio apaixonado pela noite vazia.
Gosto de conversar só por conversar,
Aprender um acorde no violão,
E fazer pouco das coisas graves...
Um poeminha de amor em espanhol
Chama a atenção, as vezes,
Fala sobre as cores da Tarde,
Sobre beijos perdidos
(Que se parecem com florzinhas de cerejeira?)
Não sei de cor mais que um verso...
Fico jogando galhinhos na aguá suja do rio,
E inventando historias banais.
Eu espero,
E pergunto ao céu violeta:
Há de vir?
Chegará o dia da semana?
A hora do dia?
O minuto da hora?
O instante?
E penso no dia que ainda nascerá,
Repassando a experiência custosa
Desses meus dias vadios.

domingo, 14 de setembro de 2008

Samba-canção

Não menti quando te disse sobre a boemia,
Sobre a cachaça, a camisa listrada,
E o Olerê, Olará
Que é sina do bom vagabundo
Meu amor, essa é minha graça, é meu mundo.

Eu quero mesmo é sair por ai
Cantando no sereno as antigas modinhas
De Carnaval

(Com prontidão num portão,
Com um pandeiro e um amigo no violão...)

E você logo vem querendo me julgar
Me acusar
Chega dizendo que é pra eu ir me aprumar.
Que a farra é indigna, que não vale nada.

Que é vida sem principio, sem moral, sem ambição!

Ai ai meu bem, saiba que há muito coração
Maior que o estudo, e que sua lógica certeira
E foi dessa sua mesma ingratidão
Que eu resolvi fazer, ressentida, sem brincadeira
Um muito fora de moda samba- canção!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Rotina...


New Century Time to Give Up:

I Wine
II Liqour
III Rich Food
IV Cigars
V Poker
VI Dice
VII Cards
VIII The Track
IX Cigarettes
X Pool
XI Pawnshops
XII Seedy Hotels

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Psiquê adormecida

Entre os corpos há comunicação.
Eles falam e se tocam,
Enchem-se de perfumes,
E vestidos de verão.
Mas as Almas não...
Não há caricia a uma alma,
Não há aroma, nem tintura,
Numa boa alma se encontra é amargura!

Quem conseguiu um dia tocar uma Alma
Não tocou senão a sua.
As almas não conversam,
Nem trocam coisa alguma.
Mas uma alma pode estar perdida,
Daí, é preciso encontrá-la
Para quando achá-la
Saber
Que nunca outra alma
Uma vez poderá lha compreender.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Conquistas


Tudo resumia-se nisso: A arte de seduzir e atrair a maior quantidade de coisas para si. Casos furtivos, amizades verdadeiras, boas oportunidades, tarefas honrosas, apreciadores, gente pertinente, críticas construtivas, amores intensos e passageiros...Esse é o artesanato da modernidade, essa é a saga do homem liberal.
Um bom sedutor tem sucesso garantido, é fato. No entanto, não pode assegurar algo como “uma felicidade tranqüila” ou qualquer coisa que se assemelhe a uma serenidade sincera. Para o conquistador permanecerá um vácuo, um vazio, uma eterna duvida do que vem depois de ter, como um ímã caótico, atraído para si todo um universo. É o exemplo clássico do bem sucedido que pira, que depois da fama e fortuna se acaba em achismos existenciais.
Mas, o que importa, claro, é o sucesso. E a sensação de se ter “vivido”...Ah..isso é essencial! Faz-se necessário, para tanto, costurar estórias, bordar casos, emendar acasos, elevando o que seria uma existência medíocre a uma sensação de se ter vivido com dignidade, dignidade esta concedida pela audácia da conquista individual.
É bom lembrar que um verdadeiro sedutor é, antes de tudo, um bom fingidor. Essa seria a regra numero um, nomeada mais singelamente de “pertinência”. Palavras como virtuosismo ou Excelência, cedem lugar à galanteamento, à audácia. Mas quê é isso senão o inevitável espírito empreendedor moderno contra o espírito antigo da Virtu, da arte da Excelência?
Enfim, Tudo resumia-se a isso. Nas casas, nas ruas, no comercio. Nas escolas, nas festas, nos grupos e associações. Não poderia dizer que fugi dessa toante, não, não fugi. Embora os antigos me fascinem demais, não há escapatória, sou uma moderna. Embora muito pouco bem sucedida, embora em tudo romântica e antiga, viver nesse mundo é estar sempre no meio de insinuações, de galanteios, de fascinações asquerosas e muito bem adaptadas, é gozar de uma liberdade a custo de um sonho qualquer, a custo de se aprender como se conquista. Desde pequenos, isso é ensinado: A arte da conquista. Senão não se vive aqui, se isola, assume-se (rs) um “isolamento social”.
Um samurai, um maestro, um eremita: A manifestação explicita de uma arte que se perdeu!! Ai como eu adimiro os virtuosos remanescentes.... Os samurais já não existem mais, e os eremitas e os maestros são considerados loucos... Mas os maestros? Você pode me perguntar, e eu lhe respondo: Sim! Os maestros que passam 49 anos trancafiados em um conservatório musical e saem de lá meia-boca! Se isso fosse em outro tempo...Não aconteceria. Até os pobres dos padres perderam a credibilidade....Todos tornaram-se uns sedutores, uns nojentos conquistadores, ou então morreram saudosos, inadaptados.
Tudo resumiu-se nisso. E resume-se para os espíritos pobres e para os homens de sucesso.
No entanto para o Velho Tadeu, amigo meu, homem de pouquíssimo sucesso e de espírito apurado (ó grande ironia moderna!) tudo resume-se a poucas lembranças e a falta de perspectivas.
Enquanto eu, odiando essa balela liberal, e no entanto filha prodiga do iluminismo, me deparo frente essa grande questão, já que me é impossível a virtu em algo (coloco aqui as tentativas na musica, no teatro, na religião, nas artes, já que nunca entrarei num convento, virarei um samurai, e muito menos um maestro) o que resta é tentar conquistar algo lá longe, com os métodos modernos, seduzindo, seduzindo, seduzindo. O custo, como já disse, é a paz de espirito. E quem a possui nessa época? Nem o mais sábio dos homens! Que hoje é considerado um anti-sociedade. É um marginal.
Eis a questão: não adaptar-se para melhor julgar, ou ceder ao espirito audaz da competitividade e conquista para construir alguma coisa.

sábado, 12 de julho de 2008

O Castelo

Um pequeno fragmento do conto:

"Certa vez no piano, depois de acabada sua quarta sinfonia, o príncipe estava tão cansado, cansado do castelo, cansado com suas composições e distrações, cansado das comidas bem conservadas, dos quartos grandes e vazios, cansado de sua juventude, que deixou sua cabeça quedar-se pesadamente no teclado do piano. O som foi tão forte que ressoou por todo o castelo. Ele ficou inconsciente por um minuto. Voltou a si com o som de sua eterna visita, a sua espera, rogando em suas batidas simétricas sua recepção.

O jovem príncipe martelou com sua cabeça o teclado novamente. E novamente com mais força. E mais uma vez. E por uma quarta vez, ainda mais intensa, machucou brutalmente as teclas de marfim.

Toc Toc Toc Toc. Ele a seguiu. Seguiu as mortais batidas dela com a cabeça no piano. Os muros do castelo tremeram com aquela violência, e ele, percorrendo toda extensão do teclado, murmurava: sol... lá.....mi.mi.... E não demorou á inserir uma melodia nas batidas com sua cabeça loira, vasta de cachos. Aos poucos foi nascendo nele uma sensação... Sentiu como uma Alegria.Uma Alegria que fez escorrer de seus olhos a mais branda lágrima. Toc Toc Toc Toc. Ele á acompanhava – Sol, lá , mi, ré – E assim continuou, sentindo-se poderoso pela primeira vez ao tocar finalmente com as mãos. “Há!” riu de um modo um tanto quanto maníaco, “És tu a minha musa?”.
(...)

No outro dia o príncipe já não era jovem. Vendo-se refletido, logo pela manhã e ocasionalmente nas louças de metal da copa, percebeu em seu rosto profundas trincheiras de carne flácida, olheiras fortes e sombrias, e que seus lábios haviam murchado como uma ameixa seca, no entanto nunca se sentira tão vigoroso. Também notou que uma clareira se delineava em sua cabeleira sempre tão vasta. Nunca teve tanto orgulho.

(...)

Do alto da escada acenou para os criados (que naquele dia retornaram a casa) e ordenou que preparassem o melhor chá da reserva. Ordenou também que concertassem o relógio do salão de jantas, que limpassem os jardins e arrumassem toda a bagunça que ele havia feito durante aqueles anos. Passando-se metade de uma hora, o velho príncipe precipitou-se á porta.
Toc Toc Toc Toc. As batidas continuavam iguais ao primeiro dia que ele as havia escutado, rústicas, limpas, claras. Ele não: Ele se tornara mais nobre.
Altivo, porem sóbrio, foi ele mesmo, sem cerimonial, abrir a porta principal. Ao virar a fechadura adornada fez-se um silencio de morte.
Frente a frente com sua visita, o príncipe não titubeou:
'Entre. És a minha convidada...'"